POLÍTICA FORA DA REALIDADE

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Há uma atitude que resume a maioria dos desacertos e mudanças de rumo neste início de governo Bolsonaro: falta de planejamento. Acompanhei e pude opinar em situação semelhante no início do governo Temer, participando de um grupo de assessores/comunicadores, que deveria ativar a relação com o público. Tínhamos quatro meses para trabalhar e tentei inúmeras vezes com que fosse feito esse planejamento, mas os dois assessores de comunicação foram silenciosamente contra.  Deu no que deu: quando deixou o governo carregava a pior avaliação de um presidente, em todos os tempos.

 

Vejo, agora de longe cenas parecidas se repetirem no governo Bolsonaro. Começou com o discurso de posse dele, um bando de generalidades. E a partir daí não passou um dia em que não houvessem, erros de postura, com ministros batendo cabeça, uns desmentindo outros; informações desencontradas para lá e para cá; o próprio Presidente e seus principais assessores desconhecendo a complexidade de funcionamento da máquina administrativa.

 

Os políticos brasileiros, em geral, vivem um imediatismo, capaz de criar situações no mínimo embaraçosas e muitas vezes perigosas. Falta a eles o discernimento ”empresarial”, que manda começar o ano com um planejamento estudado, ressaltando os acertos anteriores e evitando a repetição de erros que, aliás, vão sendo devidamente analisados, estudados e corrigidos em todas as suas variáveis.

 

O Presidente teve tempo para fazer isso nos dois meses de carência entre a eleição e a posse. Um pequeno grupo de personagens (que acabariam virando ministros e/ou funcionários graduados) deveriam identificar e estudar os grandes problemas nacionais. O discurso de posse teria que ser a apresentação desse cenário:

 

– A situação geral é esta aqui – uma tragédia!  Agora vamos aprofundar os estudos e trabalhar muito para encontrarmos a melhor solução para cada um desses problemas.

 

Seguido de uma didática do trabalho a ser realizado, dentro de uma estrutura profissional, carregando a certeza que dias melhores viriam para toda a população. Esse Plano de Ação também pautaria e ajudaria muito na escolha dos seus executores.

 

Vê-se aqui de fora que nenhuma providência nesse sentido foi tomada com consistência. E o bate-cabeça continua desde os altos escalões, até a demissão de funcionários e auxiliares diretos do governo anterior.

 

Com Temer, já na primeira reunião do grupo de assessoria – que recebeu o nome de Grupo Brasil – propus um ideário semelhante a esse que apresento aqui, ao lado de outras providências em áreas diversas.

 

O presidente sorriu, senti que gostou. O assessor de imprensa Márcio França e o marqueteiro Elsinho Mouco, que já trabalhavam com Temer, não se manifestaram – e certamente competia a eles tocarem o projeto para a frente. Na reunião seguinte foi a mesma coisa. E na outra também. Percebi que o tema não seria aprovado, pois a minha presença incomodava os titulares da comunicação.

 

O tempo passou e nada aconteceu. Uma semana antes de Temer assumir em definitivo pediram que os componentes do grupo apresentassem alternativas para o discurso de posse. Só vi e ouvi no ar, na TV. Havia umas poucas colocações minhas, mas o principal: o texto era caótico e o conteúdo do discurso nada trazia de novo e/ou importante.

 

Pois não adianta nada ter assessoria, se o que ela apresenta não é devidamente avaliado, respeitado e utilizado.

 

As pessoas tinham uma expectativa bem razoável com o governo Temer. Pesquisa IBOPE mostrou uma aprovação de 14% e uma desaprovação de 34% – números que poderiam ser melhorado, claro. Mas seu governo, dois anos depois acabou num verdadeiro desastre. Pesquisa IBOPE, em dezembro apresentava 5% de ótimo e bom e a desaprovação (74%) mais que dobrou.

 

Agora, Bolsonaro e os profissionais que o cercam, precisam entender que a opinião pública é muito importante para o governo. É com o apoio dela, que se poderá construir esse novo País, que está sendo delineado e com o qual todos sonhamos.

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Estrategista e Consultor em Marketing Político e Institucional Chico Santa Rita é jornalista e publicitário. Criou Versão dos Fatos baseado na experiência de quase 50 anos de trabalho nas várias áreas da Comunicação. São análises descomprometidas da realidade brasileira.

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